Crianças separadas de seus pais: quais as consequências?

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Estudos científicos mostram que a separação de crianças de seus pais deixa sequelas no cérebro infantil. Fenômeno ficou conhecido como ‘stress tóxico’.

Em foto de 18 de junho de 2014, duas jovens dormem em uma cela, enquanto crianças são separadas por idade e gênero, enquanto centenas de imigrantes são registrados e mantidos no Centro de Alfândega e Colocação e Proteção de Fronteiras dos EUA, em Nogales, Arizona | Foto: AP Photo/Ross D. Franklin, Pool

O mundo está estarrecido com as imagens das crianças imigrantes que foram abruptamente separadas de seus pais e colocadas em abrigos. Inimaginável supor que, em pleno século XXI, com todo o conhecimento científico de que atualmente dispomos, sejamos ainda testemunhas oculares de tal atrocidade.

Todos estamos chocados. No entanto, saindo da ótica emocional e entrando no campo racional da neurociência, esta situação pode ficar ainda pior quando se entende as consequências devastadoras que tal fato pode significar para o resto da vida destas crianças.

Nascemos com mais de 1 bilhão de neurônios prontos e formados. Estes neurônios, no entanto, precisam se ligar, se conectar entre si, formando uma complexa rede essencial à execução de funções como aprendizado, relacionamentos emocionais e tantas mais. Podemos comparar nosso cérebro a um computador que, quanto mais conectado, mais é capaz de desempenhar funções específicas.

Cada conexão entre neurônios se chama “sinapse”. O mais incrível de tudo é saber que um pequeno bebê pode fazer o número impressionante de 700 sinapses por segundo. Exatamente isso: 700 sinapses em um segundo, desde que estimulado para isso. Qual é o maior e melhor estímulo? O vínculo afetivo que este bebê desenvolve com pais e/ou cuidadores.

Todo este processo se chama “neuroplasticidade” e acontece essencialmente nos primeiros 5 anos de vida, principalmente nos primeiros 2 anos. A formação desta “arquitetura cerebral” é que estrutura o ser humano em sua plenitude cognitiva e psicoemocional.

No final do século XX o neurocientista Charles Nelson, professor da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, estudou crianças romenas que foram separadas de seus pais e publicou importantes trabalhos científicos demonstrando que as crianças que foram deixadas em abrigos, sem vínculos afetivos fortes, “desfizeram” várias conexões cerebrais já feitas.

Os estudos evidenciaram que a “arquitetura cerebral” destas crianças foi irreversivelmente danificada. Este agravo foi chamado de “ stress tóxico” e pode acontecer em crianças pequenas, quando submetidas a uma situação de risco emocional impactante como negligência, abuso, maus tratos ou abandono súbito.

Estamos chocados – sob as perspectivas emocional e racional- e temos razão para isso. Se esta situação não for resolvida rapidamente, estas crianças podem ter seu futuro cruelmente comprometido pela ignorância e pela desumanidade injustificáveis em um país que se considera o maior do mundo.

Fonte: G1

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