Durante décadas, a CES (Consumer Electronics Show) foi sinônimo de empolgação. Era quase um “segundo Natal” para quem ama tecnologia: novos consoles, TVs futuristas, computadores mais potentes e gadgets estranhos, mas irresistíveis, que prometiam mudar nossa rotina.
Só que, ao olhar com calma para tudo o que foi apresentado na CES 2026, fica difícil ignorar a sensação de vazio. A feira continua gigante, lucrativa e influente — mas não parece mais falar com o consumidor comum.
O que antes era sobre o que vamos comprar, agora gira em torno de como grandes empresas vão processar dados.
De feira de gadgets a congresso de data centers
A própria sigla CES deixa isso claro: Consumer Electronics Show, ou seja, eletrônicos para consumidores. A proposta original sempre foi mostrar produtos palpáveis, que chegariam às lojas meses depois.
Mas, em 2026, o palco foi dominado por termos como:
- servidores
- racks de processamento
- inferência e treinamento de IA
- eficiência energética em data centers
Tudo importante, claro — mas distante da realidade de quem só quer um notebook melhor ou uma placa de vídeo acessível.
O resultado? Apresentações longas, técnicas e cada vez mais parecidas entre si.
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O reinado das “donas do silício”
Nesta edição, ficou impossível negar: NVIDIA, AMD e cia. são as verdadeiras protagonistas da CES.
Jensen Huang (NVIDIA) e Lisa Su (AMD) comandaram os keynotes mais aguardados, mas os anúncios “bombásticos” não foram feitos para gamers ou usuários finais. Foram GPUs de 40 mil dólares, soluções para supercomputadores e infraestruturas gigantescas para alimentar inteligências artificiais.
Quando a NVIDIA sobe ao palco hoje, ela não fala com quem sonha com uma RTX mais barata. Ela fala com investidores e donos de data centers. As novidades para o público até existem — como novas versões do DLSS — mas ficam fora do palco principal, quase escondidas.
A AMD segue caminho parecido. Do trio das gigantes, só a Intel ainda tentou conversar mais diretamente com o consumidor, destacando chips para laptops e PCs portáteis. Mesmo assim, tudo sempre passa pelo mesmo filtro: rodar IA local com mais eficiência.
“IA em tudo” virou regra — e problema
Essa obsessão pela IA não ficou restrita às fabricantes de chips. Marcas como Samsung, LG, Lenovo e ASUS até mostraram produtos físicos, mas o foco mudou.
Geladeiras, fornos, escovas de dente, espelhos e até carros agora vêm com o selo “AI Powered”. Muitas dessas funções poderiam ser resolvidas com simples atualizações de software, mas viram argumento para justificar preços mais altos.
E quando surgem coisas realmente curiosas — como robôs humanoides simpáticos ou dispositivos vestíveis que prometem um “super agente de IA pessoal” — quase sempre estamos falando de conceitos, não de produtos reais. O famoso vaporware.
A pergunta que fica é simples: isso resolve algum problema real hoje?
Cadê os produtos de verdade?
Antigamente, a CES mostrava o que estaria nas lojas em seis meses. Hoje, o que domina o palco são promessas de um futuro distante, feitas para atrair investidores, não consumidores.
E a história recente já ensinou: muitas promessas de IA nunca se concretizam — ou até chegam ao mercado, mas decepcionam. Exemplos não faltam.
Enquanto isso, os lançamentos realmente importantes para o público têm migrado para eventos próprios das fabricantes, fora da CES.
A CES não morreu — mas mudou de lado
Do ponto de vista do mercado, a CES vai muito bem. Bate recordes de negócios, parcerias e investimentos. Mas, para o consumidor, ela perdeu relevância.
A feira deixou de ser sobre desejo e passou a ser sobre infraestrutura. Deixou de mostrar sonhos para mostrar planilhas.
O paralelo com a E3, antiga maior feira de games do mundo, é inevitável. A E3 esvaziou, perdeu identidade e acabou. Se a CES seguirá o mesmo caminho, se vai se reinventar ou se assumirá de vez um perfil B2B, só o tempo dirá.
Por enquanto, fica a sensação: a maior feira de tecnologia do mundo continua viva — mas não é mais para você.




